"Já passa das duas da manhã, e enfim acho que não vem mais, quase três horas de soluços, seu sotaque soa em minha cabeça. Fico esperando uma ligação. Mesmo sabendo que não vai ligar. Me dou mais um prazo, você ainda vem, você não vem. Eu tenho 12 anos denovo, eu olho as suas fotos e escuto nossas músicas. Eu te imagino tocando pra mim, eu imagino você chegando pela porta da frente com uma flor meio murcha. Eu imagino suas desculpas e me vejo balançando a cabeça e dizendo “tudo bem”. Tudo bem eu ficar te esperando por horas. Tudo bem meus olhos inchados de manhã. Tudo bem meus cigarros acabarem, tudo bem eu sozinha. Tudo bem, você não vem. Tudo bem, tu não é meu, quem sabe ela tenha aparecido com mais sorrisos. Afinal, qualquer um está mais perto que eu, algum desconhecido da sua rua pode sorrir pra você. Pode te ajudar a pegar o jornal, e rir quando sua cadela enroscar as coleiras na sua pernas. Eu gosto delas. Alguém pode sentar no seu sofá e tocar seu cabelo. Alguém pode te acompanhar assistindo a TV, enquanto eu só posso reclamar dela. Um garoto da sua classe pode te ver fotografando, uma mulher na rua pode te achar elegante em seu cardigã. A atendente da cafeteria pode te ver entrando pela porta, um vendedor de frutas pode avistar você na esquina, o rapaz da livraria pode ajudar você com os cartões. E eu só posso esperar que você venha, mesmo quando não vem. Eu só tenho as nossas músicas na madrugada. Eu só posso decorar suas caretas nas fotos, eu posso só ser uma besta quadrada. Ler meus livros e dedicar minhas partes preferidas à você. Cheirar minha cama e sentir sua falta. Falar de ti pros meus amigos enquanto eles riem. Ou não falar e te ter sozinha. Eu posso dançar pelo quarto imaginando você me olhando da porta, tu me puxa, me olha, me beija. Te beijo, te aperto, te sorrio. Rodopiamos, venta no meu rosto e eu estou sentada no meio da sala. E tu, onde estará? Já passa das três e me dou mais um prazo, será que tu vem?"